segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

dois pés e um coração


Eu sempre caminhei para frente. Linha reta, nada a mais, nada a menos. Dificilmente me peguei olhando para trás - por mais que minha consciência pedisse que sim -; meus pés sempre foram fortes, predominantes e, mesmo assim, tão pequenos e calejados.
Por vezes tentei vencê-los, tentei me livrar dessa mania de linearidade que tanto me levou para o inconfundível erro. Meus dedos, por vezes, sentiram o chão enrijecer, pedregoso e ríspido; eles me pediram pressa, o mais rápido que eu pudesse andar. Nunca soube dizer não, nunca. E, dessa forma, jamais desviei, nem atalhos ou ruelas. Só me sobraram os retalhos e remendos, a vergonha do maldito e estúpido erro de negligenciar a mim mesma e a minha vontade de dizer não.
Até ontem. Sim, talvez pela primeira e única vez na vida resolvi recuar e não avançar. Desacelerar e, milagrosamente, esperar. Dói, e como dói. Os atalhos requerem força de vontade, espinhos na pele, lama no chão. Os olhos viram oceano e os peixes são só carcaças. É vontade de gritar, de ir para frente, mas não dá. Não depois de tanta agonia.
Resolvi parar de duvidar, parar de ser linear e previsível. Talvez eu realmente precise caminhar para trás, para os lados e, quem sabe, simplesmente esperar no próprio lugar. O chão cura, os pés curam, a vontade cura, porém a experiência não. É menos dor de cabeça, é menos tapa na cara e isso é exatamente o que eu preciso: não de cura, mas prevenção.

domingo, 26 de junho de 2011

menos do que eu, mais do que nós


Simplesmente não consigo mais sufocar tudo dentro de mim: os sentimentos incham, a pele estica, a cabeça dói e o corpo cai; a queda é estreita e longa, os braços queimam internamente e a sensação de angústia se expande.
Eu posso levantar, bem sei que sim. Mas e a vontade? Onde foi parar a ânsia que incendiava meu corpo inteiro por causas suas? Sinto falta dos espamos de energia que sentia quando as razões eram pequenas, porém intensas. Tudo parece maior agora, e se não bastasse, coloco-me no meio de tudo, atiro em mim mesma o que talvez não fosse nem sequer balbuciado por outrem.
Fraqueza? Incapacidade? Foram-se os anos de automutilação por piedade. É ego ferido, vontade gritar - mas gritar por dentro, em silêncio, com ou sem razão. Eu só quero a voz, íntima e minha. Só quero os meus ouvidos machucados, os de mais ninguém.

domingo, 20 de março de 2011

mais uma vez...

É difícil ser direta. Escrever sem nenhuma subjetividade me deixa insegura (e como!). Sempre foram meias-palavras, poucas inverdades e muitas, muitas vírgulas. As metáforas me seguram, me amparam e me dificultam: “Não entendi uma palavra do que escreveste”. E nem eu.
Resolvi mudar um pouco, falar sem intermédios. Não é a primeira vez que tento, confesso. Todas as vezes, porém, foram em vão. Eu até que comecei bem, sabe? Tentava fugir da formalidade e simplesmente escrever como se estivesse conversando com alguém. Faltava alguma coisa; um toque, originalidade (certamente). Depois descobri que essas letrinhas são escritas POR mim e PARA mim. Então, dane-se essa mania de “complexibilidade-pré- graduação”, chega de me esforçar pra fazer alguém me entender. Isso não vai acontecer, nunca.
Sou um poço de brigas internas, de mutilação intelectual por pouco mais que outro ser humano e suas complicações. “Não vale a pena”, eu provavelmente diria se viesse da boca de outra pessoa, e não vale mesmo.
Prova disso é que esses dias eu vi uma tirinha sobre bonequinhos que nasciam com um buraco na barriga e a enchiam com momentos e objetos durante a vida. Na mesma semana, a professora de psicologia da educação deu uma palavra pra cada pessoa – coisas bem aleatórias e sem-noção, tipo: colchão de mola, bananeira – e cada um tinha que dizer como seria sua personalidade caso fosse aquela palavra. A palavra “vazio” era uma delas (assim como a barriga dos bonequinhos), e a pessoa que tirou essa palavra queria mudar. Dava pra ver na expressão facial dela que aquilo era como um sinônimo de infelicidade, exclusão. Eu, entretanto e como sempre, achei o contrário. Ela tinha tudo e não sabia. O vazio estava ali, à disposição... Infinitas possibilidades de recheio pra um infinito vazio. E pros céticos que pensam que dessa forma iria se anular qualquer tentativa de melhora, eu discordo.
A gente nasce com tanto, e nem percebe. Eu fico puta da cara com as minhas reclamações idiotas e tentativas de auto-sofrimento-proposital. É querer sentir pena de si mesmo e achar que nada nasceu pra dar certo. E ta aí, é esse tal de “nada” que nos move, que nos impulsiona a tentar melhorar.
É, a vida não foi feita pra ser feliz toda a hora. Tem até um filme (não me recordo o nome) do Arnaldo Jabor que diz: “É impossível ser feliz na vida, o máximo que vais conseguir é ser alegre, quando muito”. Eu concordo, talvez pensando em alegria ao invés de felicidade eu consiga de fato chegar mais perto de sorrir mais vezes ao dia. Ou não. Tá aí, já mudei o assunto de novo.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

homem-vácuo


Com certeza o som não se propagava naquela imensidão omitida pela negritude dos fios recém-lavados. Vácuo seria um apelido carinhoso demais para designar tamanho espaço oco que se estendia de frente pra mim, encarando-me. Sim, falo de um ser humano – se é que posso chamá-lo assim.
Um homem, como podem ter percebido. E poderia ser diferente? Às vezes penso se aqueles dois bracinhos teriam sido realmente projetados pra viver entre os bípedes, e ainda tenho minhas dúvidas.
As faíscas transformaram-se em tochas prontas pra incendiar o Senhor Maravilha ao menor mover de seu esbelto corpo. Convenhamos, alguma coisa de interessante ele deveria ter, pena que não me avisaram antecipadamente que a futilidade tinha nome, sobrenome e um cartão Visa platinum com estrelinhas azuis pra combinar com seus olhos.
Envergonho-me por ter matado alguns neurônios ao pensar nele, mas agradeço por não ter dado tempo do meu cérebro desintegrar totalmente – se ao apertar minha mão, vocês notarem que pisco o olho, não se preocupem, são resquícios incuráveis de uma péssima companhia.
Agarro-me às fofocas diárias que a mulherada passa e repassa: falta homem no mercado. Entretanto, quando falo de homem, não me refiro aos tapados de plantão que pegam balada no fim de semana e torram a conta bancária pagando bebida às atiradas de tempo integral. Não me levem a mal – e nem a quantidade de “Não” que consigo escrever em meia dúzia de linhas -, porém uma coisa é certa: se ser mulher é aceitar essa babaquice de homarada acéfala, declaro publicamente: NÃO SOU MAIS MULHER. E tenho dito.

sábado, 24 de julho de 2010

Quanto vale a humanidade?

O mundo caçoa, ri de pandemias. “São apenas porquinhos gripados”, dizem. Falta de instrução ou ignorância? Estamos em estado de calamidade homogênea, o mundo está beirando a catástrofes, enquanto aqueles que se dizem superiores, antagonizam seu individualismo exacerbado primitivando o que possuem de melhor: a inteligência. A superioridade encontra-se perdida, junto ao chiqueiro global.
Nossos princípios têm se modificado periodicamente, o egocentrismo tornou-se elogio e nato. O sabor do poder se sobressai ao gosto pela vida, celulares e computadores avançados tomam o lugar da preocupação física e mental do ser humano. As conseqüências? Olhe em volta, veja por si mesmo.
Os valores transformaram-se em clichês baratos, somos bombardeados pelo que há de novo em termos de “evolução material”, enquanto o intelecto humano desenvolve-se um meio. Do que adianta a sabedoria monetária se esquecemos do valor da vida? Deveríamos estar vestindo sorrisos, não máscaras brancas. Deveríamos desenvolver nosso lado humano, não a busca de cifrões.
As vozes da sabedoria calam-se cada vez mais, tornam-se tácitas e sem esperança de progresso; afinal, valemos menos do que aquilo que construímos? Nossa estupidez chegou ao ponto de multiplicarmos as atrocidades à medida que tentamos – inultimente – consertar o que já havíamos provocado.
Nosso planeta implora ajuda àqueles que se algemaram ao capitalismo e jogaram a chave fora. Infelizmente não temos tempo de fazer outra, mas ainda podemos nos desviar do abismo, cortando as correntes que nos encarceram a bestialidade da ciência material.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

antes do amanhã



O fim do dia. As palavras levantam-se calmamente e passam de maneira lenta aos olhos de quem as pronunciara tempos atrás. As atitudes renovam-se e atingem diferentes ângulos entre os pecadores e os atingidos. Os passos tomam ritmo e mostram aos que têm pressa, o andar vantajoso de quem não corre atrás do futuro. O cenário muda e novas possibilidades são almejadas.
É no fim do dia que julgamos nossa passagem, já que é nele que se concentram as últimas palavras antes do recomeço e os pensamentos criteriosos antes dos que seguirão.
São nas últimas horas de olhos abertos que podemos modificar todo o rumo do amanhã, que podemos lamentar as horas perdidas e pedir por extras. São nessas últimas horas que encontramos respostas para possíveis indagações, que descobrimos o prazer dos detalhes e a insegurança dos momentos, que mudamos em nós mesmos o que foi mal refletido por outros e que fazemos do próximo dia, o melhor dentre os que passamos.
O fim do dia é a possibilidade de pensarmos no restart e o dia seguinte a de transformar idéias em atos concretos.
Somos melhores a cada segundo, fazemos o amanhã esperar mesmo sem pararmos os ponteiros do relógio. Somos frutos imperfeitos do indiscutível e eternos aprendizes das horas marcadas.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Brumas


Falta valorizar. O dia de amanhã é neblina, é aquele tenso rastro de faz-de-conta que não permite aproximações, e a bruma só começa a dissipar quando os primeiros raios da manhã decidem varre-la do ontem, para que o hoje se aproxime com cautela. E nem assim, rodeados pelo nevoeiro em cada singular dia, aprendemos a dar valor aos que nos cercam, àqueles que assopram junto – por menor que seja o sopro – os devaneios de quem agoura um dia prazeroso, fértil. É triste ter que esperar que a terra corroa o resquício da carne - como se as lembranças fossem voláteis no mesmo ritmo do desgaste da pele - ,enquanto as memórias e o passado permanecem intocáveis, mas afogados pela mágoa do “deveria de ter dito”, “poderia ter feito”.
O remorso não dá vida ao passado, entretanto, afunila mais e mais o – já estreito – caminho até a auto remissão, enquanto o lago salgado de lágrimas ganha profundidade e aumenta a culpa.
São os tiques do relógio, o barulho da repetição e o desabafo que afastam a aflição, que endireitam os pés nos trilhos e secam o lago salgado. São as incontáveis lamentações e o enterro da amargura que vencem a indignação divina – aos que culpam os Céus – e faz o tempo perdoar as ações e torna-se aliado do amanhã.